Meus Sermões

Consciência de Servo

João 13.3-5

 

Introdução
Pesquisadores têm descoberto que na maioria das igrejas, 10% das pessoas fazem 90% do trabalho.
Em nosso último culto administrativo lá na Central, isto ficou muito evidente. Estávamos pensando em pessoas para formar um grupo de trabalho que indique nomes para a nova diretoria da igreja, quando Cristina observou que nos últimos quatro anos, sempre as mesmas pessoas é que são mencionadas para o serviço (10x90)...

Nós erramos em manter gente demais para mandar e pouca para servir... e um erro puxa outro, porque quando somente 10% fazem 90% do trabalho, até o termo servo fica mal-entendido: vira título de nobreza, sendo usado com orgulho: "Sou servo de Deus", ou "Eu sirvo a Deus e não aos homens!"

No boletim de uma igreja estava escrito: "Ministro da Igreja: todos os membros. Auxiliar dos ministros: o Pastor da Igreja". 
Esta declaração, muito estranha para a maioria dos crentes, é verdadeira: na igreja todos são servos... É o que lemos na Bíblia, em Ef 4.11-12, que o Senhor "deu dons às pessoas". Ele escolheu alguns para serem apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e ainda outros para pastores e mestres da Igreja. Ele fez isso para preparar o povo de Deus para o serviço cristão...".

Portanto, todos os membros da igreja são servos, são ministros... até os líderes são servos e, nesse caso, servos dos servos.

É sobre isto que quero falar... vamos ler Jo 13.3-5: "Jesus sabia que o Pai lhe tinha dado todo o poder. E sabia também que tinha vindo de Deus e ia para Deus. Então se levantou, tirou a sua capa, pegou uma toalha e amarrou na cintura. Em seguida pôs água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos e a enxugá-los com a toalha". 

Jesus apresentou um caráter de servo. 
Veja isto: o supremo Filho de Deus, o Criador de todas as coisas tornou-se servo; o Deus imortal desceu à terra "para servir e dar a sua vida em resgate de muitos", diz a Palavra.

O caráter de servo, Jesus demonstrava o tempo todo durante a Sua vida entre os homens, mas foi mediante um ato de extrema humildade, que chocou os discípulos, que Jesus deixou para nós exemplo do que é ser servo.

A cena de João 13 se passou no cenáculo, onde uma Ceia havia sido preparada (seria a última dos discípulos com o Senhor) e, numa noite que entraria para a história, porque à certa hora, Jesus seria traído.

Então, foi a última vez que os doze discípulos estiveram reunidos com Jesus... eles haviam estado juntos por três anos e meio e, em várias ocasiões, tinham ouvido Jesus dizer com toda a clareza que daria a vida em resgate de muitos, que sofreria e seria morto e tirado do mundo.

Os discípulos amavam a Jesus, mas eles estavam obcecados por posições de liderança que esperavam exercer.

Em Lc 22.24, lemos que no exato instante em que entravam no cenáculo, eles discutiam quem dentre eles era o maior: Lemos isto: "Os apóstolos tiveram uma forte discussão sobre qual deles deveria ser considerado o mais importante".
Pareciam galinhas numa granja, bicando entre si afim de obter a melhor quantidade de milho!
Ou então, ao invés das galinhas, parecidos com o pavão... pessoas parecidas com o pavão têm a postura de rei: soberbas, prepotentes, orgulhosas. Acham-se "as dez mais", melhores em tudo... porém, nunca olham para a feiúra dos próprios pés. Dizem que o pavão não consegue olhar pro próprio pé...

Olha como nós nos consideramos top: um garotinho estava indo com o pai, quando falou: "Papai, quando crescer quero ser como você". Pra quê... o pai se encheu de orgulho e, todo contente, e vaidoso, perguntou: "E por que, filho?" "Para ter um filho como eu!"

É pai, é filho... nós somos assim... buscamos o primeiro lugar... essa é a natureza do nosso ego: deixamos que outros sirvam, que outros façam, porque nós... a nós somos orientados para o conforto, para o nosso aconchego, para a nossa comodidade... eu estou falando de mim!

Sabe, irmãos, essa atitude não conduz com a mentalidade de servo, cujo espírito de serviço é orientado para o próximo, e não para o ego.

Por causa dessa disputa acerca de quem seria o maior dentre eles, Jesus os repreendeu, dizendo (lemos em Lc 22.25-27): "Os reis deste mundo têm poder sobre o povo, e os governadores são chamados de "Amigos do Povo". Mas entre vocês não pode ser assim. Pelo contrário, o mais importante deve ser como o menos importante; e o que manda deve ser como o que é mandado. Quem é o mais importante? É o que está sentado à mesa para comer ou é o que está servindo? Claro que é o que está sentado à mesa. Mas entre vocês eu sou como aquele que serve". 
Um por um, foram tomando seus lugares à mesa... o costume era sentar em almofadas, com os pés cruzados bem próximos à mesa.

Naquela sala, embora tudo tivesse sido preparado de antemão, inclusive um vaso de água, uma bacia, toalha... não havia ali nenhum servo doméstico, nenhuma pessoa contratada para fazer a costumeira lavagem dos pés... não havia pessoa para fazer isso.

Mas, nenhum dos discípulos fez um movimento sequer no sentido de servir a alguém fazendo aquela tarefa.

Todos estavam muito acima daquela função, que aliás, era própria dos escravos... todavia, veja a atitude de Jesus - Ele não se achava superior aos escravos.

João (Jo 13) nos conta que quando Jesus lavou os pés aos discípulos, o Senhor sabia de quatro coisas que tornariam esse gesto inesquecível.
Primeiro, somos informados de que Jesus sabia que "Jesus sabia que tinha chegado a hora de deixar este mundo e ir para o Pai" (v.1)... a hora de Jesus partir tinha chegado.

Várias vezes, João registra Jesus dizendo: "ainda não chegou a minha hora", mas agora, às vésperas da crucificação, a hora tinha chegado.

Então, próximo de sua partida deste mundo, nesse momento-chave, Jesus se humilhou lavando os pés aos discípulos... Jesus fez o que jamais faríamos: assumiu a condição de servo humilde.

Em segundo lugar, Ele sempre havia amado os seus que estavam neste mundo e os amou até o fim" (v.1).
Os discípulos eram chamados por Jesus de "os seus", porque Jesus tinha prazer em reivindica-los para si.

Jesus conhecia cada um deles como pessoas que haviam falhado uma porção de vezes, e continuariam a falhar... Jesus sabia que Felipe não iria entender, bem ali à mesa... Jesus sabia que Pedro o haveria de negar naquela mesma noite, lá pela madrugada... Jesus sabia que Tomé iria duvidar da sua ressurreição, sabia que todos O haveriam de abandonar e fugir antes da noite cair...

Entretanto, irmãos, sabendo tudo isso, e apesar disso, Jesus os amou até o fim (literalmente: "ao máximo")... sabendo de suas falhas, Jesus se inclinou e lavou os pés deles... o Senhor tomou postura de servo.

Em terceiro lugar, "durante a ceia, tendo já o diabo posto no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, que o traísse..." (v.2).
Jesus estava bem ciente de que o traidor estava sentado com Ele, à mesa, bem ao seu lado... no v.21, lemos que Ele disse: "Um de vocês vai me trair". 

Jesus viu que nos lugares sombrios da mente de Judas, o esquema da traição estava armado... sabedor disso, o que Jesus faz, irmãos? ...o Servo-modelo inclinou-se a fim de tomar os pés de Judas em suas mãos e lavá-los - num exemplo notável de perfeito espírito de serviço a quem quer que seja.

Por fim, lemos nos v.3-4, isto: "Jesus sabia que o Pai lhe tinha dado todo o poder. E sabia também que tinha vindo de Deus e ia para Deus. Então se levantou, tirou a sua capa, pegou uma toalha e amarrou na cintura." 
Jesus estava totalmente consciente de sua origem divina e da glória que receberia... Ele sabia que o Pai lhe tinha prometido autoridade sobre todas as coisas... entretanto, o Herdeiro de todas as coisas, humilhou-se a fim de fazer aquilo que um escravo faz.

Irmãos, lemos em Fp 2.5, isto: "Tenham entre vocês o mesmo modo de pensar que Cristo Jesus tinha".

João descreve o gesto de Jesus numa série de frases cheias de significado.
Nos v.4-5 lemos: "Então se levantou, tirou a sua capa, pegou uma toalha e amarrou na cintura. Em seguida pôs água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos e a enxugá-los com a toalha".

Estes atos foram proféticos, como está escrito em Fp 2.5-8: Jesus se levantou do seu lugar ao lado do Pai, nos céus, deixou a sua glória, assumiu a forma de servo, derramou seu sangue em oferta pelo pecado e, em seguida, ressuscitou e sentou-se à direita do Pai.
Mas os discípulos não entenderam isto... cada um deles, sem dúvida, pensava em seu coração, que Jesus deveria ser a última pessoa dentre eles a fazer o serviço de um escravo doméstico.

Entretanto, ninguém se apresentou a fim de fazer aquele trabalho no lugar de Jesus... é provável que cada um tenha pensado que outro qualquer, dentre eles, faria o serviço.

É provável que Tiago tenha pensado: "André... André vai fazer o trabalho!"... enquanto cada um pensava assim, Jesus se levantou e se pôs a lavar os pés deles, um a um... até chegar a vez de Pedro.

Pedro ficou embaraçado diante daquela situação... ele ficou espantado com o que estava vendo Jesus fazer.
Pedro até explodiu, como lhe era típico, lemos no v.6: "Vai lavar os meus pés, Senhor?"

Por que razão Jesus haveria de servir ao servo? Por que motivo Jesus se faria de servo do servo? ...a resposta de Jesus, no v.7, indica que havia muito mais neste ato do que simples água e pés limpos: "Agora você não entende o que estou fazendo, porém mais tarde vai entender!".

Pedro precisava observar e aprender, somente observar e aprender, e não falar...

Mais tarde, Pedro aprenderia duas valiosas lições espirituais relacionados com este evento: a lição da purificação, ao seu restaurado, depois de ter negado três vezes ao Senhor... e a outra foi uma lição sobre humildade, sobre a qual ele escreveu mais tarde em sua primeira carta.

É claro que Pedro tinha humildade... ele reconheceu que Jesus não deveria lavar os pés dele, mas Pedro também tinha orgulho suficiente para orientar Jesus sobre o que Ele deveria fazer.
Com ênfase, Pedro afirmou que Jesus nunca iria lhe lavar os pés, mas bastou um minuto depois e ele mudou de opinião.

Somos assim também, com freqüência apertamos o gatilho com rapidez, pensando que temos razão... todavia, depois temos que procurar a "bala" que disparamos por engano.

Jesus, muito amavelmente, disse a Pedro: "Se eu não te lavar, não tens parte comigo" (v.8).
Jesus estava usando os pés sujos de Pedro como ilustração de uma verdade espiritual de grande importância: assim como aqueles pés precisavam ser lavados pelo escravo doméstico, porque estavam sujos, os crentes também, contaminados pelo mundo, precisam ser lavados por outros servos, restaurados por outros servos.

E como foi preciso que Pedro admitisse que seus pés estavam sujos e que precisavam ser colocados nas mãos do Senhor para serem lavados, assim o crente que pecou, deve chegar-se ao Senhor, confessar o seu pecado e receber perdão e purificação.

Jesus falou pra Pedro que se ele não fosse lavado não teria "parte" com o Senhor.
"Parte" significa comunhão diária, companheirismo diário com o Senhor... essa mesma palavra foi usada quando Jesus disse à Marta que Maria havia escolhido "a boa parte" (Lc 10.42), porque Maria havia escolhido companheirismo, ela havia escolhido permanecer na presença do Senhor, enquanto Marta se ocupava com outras coisas.

Nossa comunhão prática com o Senhor é tão frágil que o pecado mais insignificante pode rompê-la... eis a razão por que esta lição é tão importante para todos nós que queremos servir ao Senhor.

Lutero disse isto: "O diabo não permite que crente algum alcance o céu de pés limpos durante todo o trajeto". Ele tinha razão...
Conta-se que uma serpente perversa, perseguia teznamente um vaga-lume de intenso brilho. Após muita perseguição, o vaga-lume perguntou à serpente: "Posso fazer três perguntas?" A serpente respondeu: "Não costumo fazer concessões, mas como vou lhe devorar mesmo, faça as três perguntas". O vaga-lume começou: "Pertenço à cadeia favorita de sua alimentação?" "Não", respondeu a serpente. "Eu fiz algum mal à você?" "Não". "Por que então me persegues?" A serpente explicou: "O seu brilho me incomoda".

Todavia, a comunhão partida, que se rompeu por causa dos pés sujos, pode ser restaurada pela purificação oferecida por Jesus... na Bíblia lemos: "Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda injustiça" (1Jo 1.9).

Quando Pedro começou a entender que, o que Jesus estava falando, era de purificação espiritual, era de comunhão com Deus, Pedro reagiu com aquele impulso que o caracterizava, ele disse: "Senhor, se tu estás falando de comunhão contigo, de companheirismo diário contigo, então, dá-me um banho completo! (v.9)".
Naqueles dias, após o banho, as pessoas saíam de suas casas por ruas poeirentas, usando sandálias. Quando voltavam, era preciso tornar a lavar os pés... se iam ao mercado ou a casa de um amigo, era assim que faziam.

Havia apenas um banho, mas muitas lavagens dos pés sujos, entende?

A lição para Pedro e para nós é que ele já havia tomado um banho (ele era crente, ele tinha seus pecados perdoados) e não precisava mais de um banho...

O que Pedro precisava era que seus pés fossem lavados, o que ele precisava era de uma lavagem para livrar-se das sujeiras do mundo... ao pecar, Pedro não precisava de salvação, mas de renovação da comunhão com Deus.

Irmãos, quando pecamos, podemos nos dirigir ao Salvador e receber restauração... o Senhor usa a água da Palavra a fim de nos lavar... 
Quando estivermos convencidos de ter desagradado ao Senhor, nós podemos ir a Ele de imediato e confessar nossa falta. Então, Jesus, o Servo perfeito, fará o trabalho de lavar nossos pés e, assim, ficaremos novamente limpos e a comunhão com Jesus volta a ser gloriosa como antes.

A gente só não consegue ser servo eficiente de Jesus se tivermos pés sujos.

Agora, no v.12, Jesus começa com uma pergunta: "Vocês entenderam o que eu fiz?".
Sem aguardar a resposta, Jesus foi logo explicando, lemos nos v.13-15:

Jesus estava dizendo: "Se eu, que sou o Mestre e Senhor de vocês, assumi o papel de servo, então vocês que são meus servos deverão estar prontos e dispostos para servir uns aos outros".

Com alegria, depois disto, cada um daqueles homens lavaria os pés de Jesus, com certeza... mas o Senhor disse que eles deveriam servir ao próximo.

Lavar os pés dos outros... em Gl 6.1 lemos como fazer isto, está escrito: "Meus irmãos e minhas irmãs, se alguém for apanhado em alguma falta, vocês que são espirituais devem ajudar essa pessoa a se corrigir. Mas façam isso com humildade...". 

Se um irmão do nosso grupo ou da célula, é apanhado em pecado, os crentes espirituais deverão lavar-lhes os pés... como? Tomando a água da Palavra de Deus e, com humildade, aplicá-la ao irmão que pecou, conscientes de que eles também estão sujeitos ao pecado.

Agora, a nossa natureza nos diz que é para fazermos isso com severidade... usar água fervendo para que o irmãozinho que pecou nunca mais se esqueça... se pecar de novo, então vamos usar lixa em vez de água, que é a Palavra de Deus.
Irmãos, Jesus praticou o que ensinava ao dizer a seus discípulos que Ele viera para servir, e não ser servido (Mc 10.45).

Vinte e cinco anos mais tarde, quando Pedro escreveu sua primeira carta, ele lembrou da lição a respeito do lavar os pés, quando disse: "sejam um exemplo para o rebanho. E, quando o Grande Pastor aparecer, vocês receberão a coroa gloriosa, que nunca perde o seu brilho. E vocês, jovens, sejam obedientes aos mais velhos. Que todos prestem serviços uns aos outros com humildade, pois as Escrituras Sagradas dizem: "Deus é contra os orgulhosos, mas dá graça aos humildes!" Portanto, sejam humildes debaixo da poderosa mão de Deus para que ele os honre no tempo certo".

A lição de Jesus a respeito do espírito de serviço foi concluída com uma bem-aventurança, v.17: "Já que vocês conhecem esta verdade, serão felizes se a praticarem". 
Deus tem uma bênção especial para o servo humilde que se inclina a fim de "lavar os pés" de seus companheiros.

Conclusão
Irmão/irmã, se você não prestar serviço como "lavador de pés", você estará se colocando acima do Senhor Jesus, Ele porém disse que "o servo não é maior do que o seu senhor" (v.16).
Quantas dores inúteis a gente sofre só porque nos recusamos a humilhar-nos e prestar serviço aos outros... e quantas dores, quantas tristezas, seriam evitadas no mundo, se houvéssemos atendido às palavras de Jesus...

Amados, com tantos crentes sofrendo ao nosso redor, em nosso pequeno grupo, em nossa célula, com tantos irmãozinhos sofrendo à nossa volta, há inúmeras oportunidades para o serviço de lavar os pés dos irmãos.

E se, realmente quisermos seguir a Jesus, essa é uma ordem dEle para nós: caminhar pelo caminho da humildade, o caminho do serviço.

MINISTRAÇÃO
1. Dar um tempo para quebrantamento...
2. Lavar os pés uns dos outros...

 

Pr Walter Pacheco da Silveira